segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Seja inadequado, porque não se adequar a uma sociedade doente é uma virtude



A vida contemporânea cheia de regras e adestramento fez com que houvesse uma padronização completa das pessoas, de tal maneira que todos se comportam do mesmo modo, falam das mesmas coisas, se vestem mais ou menos do mesmo jeito, possuem as mesmas ambições, compartilham dos mesmos sonhos, etc. Ou seja, as particularidades, as idiossincrasias, aquilo que os indivíduos possuem de único, inexistem diante de um mundo tão pragmático e controlado.

Vivemos engaiolados, tendo sempre que seguir o padrão, que se encaixar em normas pré-determinadas, como se fôssemos todos iguais. Sendo assim, a vida acaba se transformando em uma grande linha de produção, em que todos têm que fazer as mesmas coisas, ao mesmo tempo e no mesmo ritmo, de modo a tornar todos iguais, sem qualquer peculiaridade que possa definir um indivíduo de outro e, por conseguinte, torná-lo especial em relação aos demais.

Somos enjaulados em vidas superficiais e nos tornamos seres superficiais, totalmente desinteressantes, inclusive, para nós mesmos. Sempre conversamos sobre as mesmas coisas com quer que seja, ouvindo respostas programadas pelo padrão, o qual nos torna seres adequados à vida em sociedade.

Entretanto, para que serve uma adequação que transforma todos em um exército de pessoas completamente iguais e chatas, que procuram sucesso econômico, enquanto suas vidas mergulham em depressões?

Qual o sentido de adequar-se a uma sociedade que mata sonhos, porque eles simplesmente não se encaixam no padrão? Uma sociedade que prefere teatralizar a felicidade a permitir que cada um encontre as suas próprias felicidades. Uma sociedade que possui a obrigação de sorrir o tempo inteiro, porque não se pode jamais demonstrar fraqueza. Uma sociedade que retira a inteligência das perguntas, para que nos contentemos com respostas rasas. Então, por que se adequar?

Os nossos cobertores já estão ensopados com os nossos choros durante a madrugada. O choro silencioso para que ninguém saiba o quanto estamos sofrendo. Para manter a farsa de que estamos felizes. Para fazer com que mentiras soem como verdade, enquanto, na verdade, não temos sequer vontade de levantar das nossas camas.

O pior de tudo isso é que preferimos vidas de silencioso desespero a romper com as amarras que nos aprisionam e nos distanciam daquilo que grita dentro de nós, esperando aflitamente que o escutemos, a fim de que sejamos nós mesmos pelo menos uma vez na vida sem a preocupação de agradar aos outros.

Somos uma geração com medo de assumir as rédeas das próprias vidas. E, assim, temos permitido que outros sejam protagonistas destas. É preciso coragem para retomá-las e viver segundo aquilo que arde dentro de nós, mesmo que sejamos vistos como loucos, pois só assim conseguiremos sair das depressões que nos encontramos. É preciso sacudir as gaiolas, já que, como diz Alain de Botton: “As pessoas só ficam realmente interessantes quando começam a sacudir as grades de suas gaiolas”. E, sobretudo, é preciso ser inadequado, porque não se adequar a uma sociedade doente é uma virtude.

11 comentários:

  1. Eu não sei nem por onde começar, mas meu deus. Esse texto é fantástico, eu sinto que finalmente existe alguém capaz de me compreender. Muitíssimo obrigada por escrevê-lo.

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  2. Bom dia!

    Um texto que esparrama uma verdade que prefere-se juntar e ocultar numa caixinha: que a homogeneização de nós mesmos nos tem tolhido até as individualidades mais íntimas. Como disse Morfeu em Matrix, que você “nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para sua mente”. Parafraseando o texto, sonha-se o mesmo, fala-se o mesmo, veste-se o mesmo. Mas, se você se atreve a andar na contramão dessa via, descobre que ela não é mão única, não obstante toda a estrutura que a quer assim.

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    1. Olá Renato! Exatamente! É preciso ser corajoso para sair da matrix.
      Abraços!

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  3. Ótimo texto Erick ...... como sempre!!!

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  4. Conheci alguns dos seus textos hoje, pela Internet. Moço, parece que você escreve diretamente prá mim. Parabéns!

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    1. Muito obrigado Tânia! Eu leio as mentes, rsrs.

      Estamos em um endereço novo: www.genialmentelouco.com.br

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  5. A sociedade moderna e pós-moderna distancia cada vez mais o ser humano da sua própria essência em benefício da obtenção do lucro. Estamos em uma tremenda armadilha, é uma luta diária ir contra a maré e viver onde as pessoas encontram-se "encantadas" com a futilidade e com o sistema.

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  6. Tenho 43 anos hoje. Desde meus 16 que sigo contra a correnteza que as pessoas ao meu redor mergulharam de cara, e que efetivamente não serve pra mim.
    Sempre preferi trabalhar por conta própria, nunca tive um emprego formal. Cursei três universidades, mas não concluí nenhuma (nenhuma delas me ensina o que eu realmente quero saber, por isso me são completamente inúteis. Pra que cursá-las? Embora isso sempre fosse sonho dos meus pais, sinto muito, mas não nasci pra seguir os sonhos de outras pessoas, mesmo que essas pessoas sejam meus pais). Cheguei a tirar uma carteira de trabalho, mas logo depois de dois meses resolvi jogá-la na lata do lixo, e nunca me arrependi disso. Chamaram-me de louco, e na verdade adorei ser chamado assim. Não tenho intenção de passar de 10 a 12 horas diárias trabalhando pra incrementar os sonhos de um patrão qualquer que nem sequer sabe que sonhos eu mesmo tenho pra mim.
    Pra mim, essa estória de fazer faculdade, arranjar um empreguinho qualquer, passar em um concurso público (uma das maiores armadilhas do nosso tempo), casar, trabalhar feito um mouro pra me aposentar e só depois poder curtir a vida, não tá com nada. Pra mim, a vida é AGORA!!!
    Eu sou músico e já faz 17 anos que estou nessa carreira musical que eu mesmo criei. Sou relativamente conhecido, não sou famoso ainda, nem tenho dinheiro sobrando. Dinheiro não é importante pra mim em primeiro lugar. Ao meu ver, dinheiro é apenas um instrumento de que me utilizo para conseguir minhas metas. Triste daquele que pega qualquer trabalho, mesmo um que deteste fazer, apenas porque está pensando no dinheiro no fim do mês. Esse tipo de vidinha medíocre não é pra mim.
    Eu vivo modestamente até demais, tenho pouco dinheiro, mas sei fazer tudo o que quero com o pouco que tenho. Não gasto com as tranqueiras modernas objetos de consumo, nem gosto mais de ir a farras gastar dinheiro que não voltará mais. Eu só aplico meus parcos recursos financeiros em meus objetivos. Já atingi muita coisa, e já poderia me dar por satisfeito. Mas eu quero um dia ficar famoso com minhas composições, quero ser reconhecido, e mesmo que isso demore mais 17 anos pra acontecer, eu jamais pararei de perseguir esse desiderato enquanto eu tiver fôlego de vida!
    Podem me chamar de louco, não tô nem aí. Já me chamaram muitas vezes, dizendo que eu devia largar isso de carreira musical, fazer faculdade e passar num concurso público. Mas, como diz Raul Seixas, "não sei onde tô indo, mas sei que eu tô no meu caminho! enquanto você me critica, eu tô meu caminho!". Como disse também a grande cantora Maria Alcina, "prefiro ser doida como sou! de normal já bastam os outros!".

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